O filme Nosso Lar tem dominado nossas atenções, e pelo visto não sem razão.
Muito pode ser dito sobre ele, muito há de ser pensado e debatido, e é por isso mesmo que vou tentar sair do lugar comum e dividir com os amigos uma reflexão não sobre o filme exatamente. Até porque eu ainda não pude assistir e estou informado apenas pela opinião de muitos amigos.
Chamou-me muito a atenção a confusão ocorrida no blog do Maurício Stycer, do UOL. Clique aqui e confira o que ele conta sobre a crítica que escreveu sobre o filme.
Em suma, até hoje por duas vezes o blogueiro teve que fechar a área de comentários de seu site, em razão de excessivas agressões. Uma foi agora, quando escreveu sobre o filme Nosso Lar. A outra, por ocasião do filme Chico Xavier.
A impressão que eu tenho é a de existir grande despreparo por parte dos espíritas (ou simpatizantes da "causa") na hora de lidarem com a diversidade de opiniões. Fico meio receoso de ver que aparentemente muitos de nós estamos à espera de um momento em que o Espiritismo vai se levantar como verdade insofismável, convencendo a todos, o que é obviamente um grande engodo.
Isso é quase um "fundamentalismo espírita", e a própria forma como às vezes nos mobilizamos para votar em personalidades espíritas como pessoas influentes ou em filmes espíritas como concorrentes ao Oscar, ou, ainda, para que um filme seja muito assistido em sua primeira semana porque isso pode angariar a simpatia da produtora para esse ou aquele benefício, parece revelar um desvio de perspectiva.
Mas - vejam -, disse que fico preocupado com a forma como vimos fazendo isso. Afinal, cada um defende - e deve mesmo defender - sua convicção, mas não sem deiscuidar da maneira como faz isso, pois todos temos nossas responsabilidades nesse campo. Mais ainda nós mesmos, que nos arvoramos em defensores de um Cristianismo redivivo e, assim, temos sobre nós o peso de grande responsabilidade perante o mundo, o que deve se refletir em nosso comportamento em todos os sentidos.
Estamos sendo diligentes e serenos com tudo isso? Estamos sendo capazes de agir de maneira moralmente equilibrada e sintonizada com os princípios cristãos? Se em nome da divulgação ou do que quer que seja seguirmos fazendo o estardalhaço mau educado e pretensioso que às vezes tem ocorrido, penso que é melhor não sairmos de onde estamos.
O mencionado blogueiro Maurício Stycer criticou o cenário do filme e outros aspectos relacionados. Nada mais natural. É um filme, e sofre críticas de cinema. Se não quiser sofrê-las, aliás, não se arvore pelo campo da sétima arte. Mas... um monte de gente escreveu pro UOL pedindo para que o autor do Blog fosse demitido. Chega a ser incrível. Isso é postura que se recomende? É assim que procuramos resolver a diversidade de pensamentos?
O que será que pensam? Que o filme é fruto de um livro santo e que qualquer crítica é disfarçada pancada nos postulados espíritas, que não deve ser tolerada?
Por isso, um lembrete aos encantados com o momento que, para muitos, significa que o Espiritismo está "saindo do armário": o mundo espiritual não possui religião, e não há qualquer menção na obra de Kardec que sugira que o Espiritismo se tornará a religião preponderante ou algo do tipo. O que deve preponderar, um dia, é o amor e o respeito às leis morais, mas isso não vai colocar credos e pessoas uns acima dos outros.
Mais ainda: a seguimentação de credos vai perder o sentido e desaparecer. Mas pelo visto vai demorar um tanto. Afinal, pelo evento em comento não é difícil perceber que falta-nos preparo para vivenciar os princípios que esposamos, nas mais simples questões. Justo nós, que julgamos conhecer a Terceira Revelação.
Alteridade e respeito à diversidade são bases sem as quais a fraternidade não há de triunfar. Cultivemo-las, portanto, pois o Espiritismo só se justifica na condição de remédio forte para doentes graves, necessitados de equilibrarem a moral pelo exercício da virtude e pela contenção das mazelas interiores.